domingo, 17 de abril de 2011

Livro: Repugnações e Desejos




Livro Repugnacoes e Desejos do poeta Eduardo Dantas
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Castigo de um pecado confesso


É deveras que na minha inocência de infante,


Atirei na cruz inúmeras pedras.


E num dia na falta destas,



E já na minha adulta pervertidade



Atirei na cruz minha cabeça.



E da quaresma à páscoa,



Ficaste no madeiro dependurada.



Ria como quem não rir da própria desgraça...



Um corvo lhe arrancava a tez em grandes lascas



E pela lança do centurião, escorria a massa cefálica.



Como, da lenda, a mula sem cabeça


Meu corpo noctâmbulo, que foi condenado,


A levar no lombo o peso de uma raça!


Do tato fez-se olhos e dos pés os demais sensórios.



E minha cabeça enquanto julgamento aguardava,



De Calcutá, Gandhi, Gautama e todos que morreram



Em nome da filantropia, ria.



Ria do INRI que fora condenado e morreu,



Para redimir do homem os pecados



E por séculos e séculos jaz o grande mártir



E não há um dia que em pensamentos,



Gestos e palavras



Viva o homem sem pecar.



A ver longínqua no lombo de seu corpo,



Tal raça.



A priori julgou-a de glorias digna, excelsa, inefável...



Mas, ao conhecê-la em essência,



Julgou-a intrigante, descontente, não obstante repugnante.



E por não se arrepender dos escárnios e heresia,



Condenada foi a consumar das entranhas herméticas



Da gênese humana



Todos os instintos vis e bestiais,



Que nasceram da sapiência e com a sapiência jaz.


Eduardo Dantas

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