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domingo, 7 de agosto de 2011

perpendiculares

desafiar o novelo
num grito
nesta linha
perigo

desafiar o caminho
aviso!
preciso parar
de correr o risco
da vida.

Laís Romero

quarta-feira, 4 de maio de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Eu sou um estranho navio
ausente de assim ter nascido
um ausente partido
coração entranhado no mar

Toco em todas as terra
sem centímetros de perguntas
que lançadas, voltam
e, a indagar, passam o resto da vida

Sou um estranho navio
que, distante
se mostra em brilho
e, constante
se perde intenso em delírio

Um estranho e pesado
navio de guerra
por vezes jangada
e, no amor, um delicado cruzeiro

Um navio apenas
indefinido por ser impróprio
apaixonado pelo oceano
em que, naufragando
se refaz a cada instante


Laís Romero

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Madrugada Poesia


Os olhos pesam
A alma quer se sentir conectada
As paredes:
Concreto
O pensamento:
sintético
O ser humano sem demasias
Sem demoras se joga: língua
Os signos organizados
As sereias nadando em círculos
E o transtorno sendo burlado
Pela mão que desaba
Desata
Desatina a poesia
Pena, caneta, esfinge, teclado
Pesar, cantar, desistir? Jamais.
Pesadelo do protesto contido!
O escrito se aborrece com o fetiche do escritor
As palavras se tornam fugidias
Música
Música
Poesia.
Precisa de ritmo
Arritmia
Descontrola o pulso
Fecha o punho
Pomo da discórdia
Acordar mais uma vez para dentro de si
E descobrir que as fronteiras
Continuam ali para serem quebradas


Laís Romero

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Eu
fantoche do absurdo
cabeça vazia e peito cheio
sempre
em desacordo com o tempo
quase ao alcance das constelações

No caminho não procuro
tabacaria alguma
tampouco finjo o que não pretendo

Palavras ecoam
e a melhor expressão
é a do silêncio
que mesmo verbo
não versa em nada

Não há flores neste asfalto
e a poesia em mim se cala


Laís Romero

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

por um frio


Talvez eu tenha ficado duro demais e por fora essa dureza é menor. Pode acreditar meu amor, essa dureza por fora é menor, tenho medo da crueza de minha real indiferença, tenho medo de todos os outros que desejem meu desespero. E esse medo é o que me faz companhia, mesmo quando estou confuso, ele é o mais perto que posso me aproximar do calor humano. Assim é real, não me desespero, quase nunca. Você sabe que quando choro é por impotência, e essa impotência que se pronuncia em meus atos é bem melhor representada pela violência depositada em coisas desprovidas de espírito e nervos.

Laís Romero

terça-feira, 16 de novembro de 2010

desatino de nós


são tantos os desatinos e disparates
tal qual pregos que caem numa bandeja de metal
ensurdecida
ensandecida
por vezes tinindo
entrego o jogo
desato os nós deitada na grama
deitada na neve
com toneladas de devaneios sobre as sobrancelhas
a noite não me comove mais
e as luzes da manhã não despertaram ainda
piso devagar
divagando profana
mas os nós - todos nós - que criei
nós vamos sair dessa
nós não somos mais
todos eles desistiram
destruíram a colorida viagem
e me jogaram nas paragens
em frente a uma porta
que nunca vai se abrir.


Laís Romero
http://humanahumana.blogspot.com/

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Não me espera
senta lá fora e fica
olhando o céu
um Órion atravessado
na retina
enquanto Plêiades dançam
carinhosas.

Pode ficar aí
sem pressa
eu não volto meu bem
não me espera
o sabor da vida
é não saber
como manter
as feridas abertas.

Qualquer dia desses
eu passo por aquia
pareço em riso.
O desespero é meu
compromisso
e por causa disso
eu imploro,
como quem nada quer,
o meu simples desejo:
não me espera.


Laís Romero

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Exibição Única


Uma esquina se esquiva
De danos irreversíveis
Se desdobra em mil artes
Fugindo das dores.

Uma hora noturna altera
Qualquer rosto vulnerável
Esse meu, então,
Nem se fala
É um palimpsesto maldito
Mil faces numa cara!

Meu caro,
Queria só garantir
De recostar meu sentir
No teu contente
Entende?
É uma questão de
chover mais na frente
O que era previsível.

- Mais explícita?
É simples:
Baldeei uma vida inteira
Exclamei ventos
E abracei portas...
Mas só queria entortar o penso
E me fazer notar
pela peça mais imponente.


Laís Romero

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pausadamente Árida

Nem o vento é capaz
de condensar as minhas lágrimas.
Hoje que me faço
ataduras de veludoaos ouvidos machucados.
Logo hoje
minha coluna
mantida ereta
cabeça erguida
e
na testa
um suor porco.
Me sinto pouco.
Talvez nenhum.
E não choro
águas paradas
lagoas desembocando no caos.
Logo hoje
elegia ao tempo
eu sofro de mundo
e mudo
o vento
a cada instante.
Queria mesmo era chorar.


Laís Romero

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desafiado

Ele tinha os melhores argumentos: facas agudas e impecáveis. Suspeitei desde sempre que ele as limpava a noite inteira, como cena de filme, ele lá sentado numa mesinha encardida limpando as facas, absurdo e perfeito, escuro e tenso, preparando armas infalíveis debaixo de uma lâmpada de luz azul. Com crueldade ele conduzia as mulheres pelo mesmo caminho, uma espécie de deslumbre doentio e, quando queria, as fazia sangrar com as facadas leves, elas amavam aquilo não sei como, elas deslizavam facilmente no próprio sangue até um abismo sem possibilidade de limites. Apaixonadas, caíam sozinhas e febris. Ele retornava desses momentos com ar satisfeito, sem risos ou comemorações, simplesmente satisfeito e pronto para novamente limpar as facas pontiagudas e desejadas por muitas em segredo. Um dia, de supetão, ele foi esfaqueado, literalmente esfaqueado, fiquei chocada com a situação pensando se minha metáfora o levara a este trágico fim: um atirador de facas possuído pelo desejo de vingar-se esfaqueou o homem forte dos argumentos perfeitos, a mulher retornou para o circo com a honra limpa e refeita, continuava casada e irremediavelmente castigada pelo peso daquela morte.

Laís Romero

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Conto-confronto

O personagem rude atravessa a rua, a personagem fria desliza.
O personagem exausto grita escuro, a personagem enérgica se cala nas pálpebras fechadas.
O personagem rouco se dobra e desdobra, a personagem bailarina de pupilas arredondadas abarca o sorrir...
O personagem disposto se oferece em favores, a personagem ingrata se orgulha de precisar calada.
Uma batalha vã que se resume ao palpitar macio, mãos frias, preocupações extensas, pensamentos em demasia, conselhos sem sentido, sentidos sem rumos e pretérito-mais-que-presente.

No fim das contas, paga-se à vista e a carne é triste e gostosa.


Laís Romero

sábado, 12 de junho de 2010

De quando o mundo me atacou

Eu estava inerme
a cara imberbe
as mãos mergulhadas no vidro:
completamente imóvel.
É.
Eu continuo nua
o frio abre a pele
as marcas perfeitas profundas
corte raso profano
barulho indeciso
não se sabe pr'onde olhar!
Mas onde se sente
não se racionaliza
nem economiza
se derrama, declama:
grita, assusta, empurra e puxa!
Talvez, mergulho denso.
Talvez, molhar descontrolado.
Talvez: é respirar congestionado
Grito no plástico
Sufoco atmosférico

Laís Romero

sábado, 15 de maio de 2010

medíocres & prepotentes

Eu não sei escrever. Não sei recitar. Eu não nasci com um dom. Não ganhei nenhum prêmio literário. Não sou famosa no sudeste do Brasil. Não me formei num curso de Direito. Não sei desenhar, nem pintar, nem esculpir. Não publiquei nenhuma obra com 18 anos. Não revolucionei a sintaxe de minha língua. Não sou regionalista, nem ufanista, nem 'ista' nenhum. Não moro em Brasília, nem no Chile. Não sou marginal, nem alternativa, nem punk. Não falo 4 línguas, nem inventei uma. Não danço ballet, nem aprecio quem o faça. Não sei dançar. Não canto, nem toco nenhum instrumento. Não fui presa na ditadura, nem torturada. Não escrevi um best seller sobre minha prisão em 64. Não morri de tuberculose. Não me suicidei na Segunda Guerra. Não comprei ações e fiquei milionária. Não sou diplomata. Não escrevi cartas quando era diplomata. Não deixei minha amante morrer afogada. Não salvei poesias de um naufrágio enquanto minha amante morria. Não sei tudo de gramática. Não me formei em Português. Não tenho nome de flor. Não mudei meu nome. Não me casei com um filósofo famoso e suicida. Não tenho heterônimos. Não sei jogar xadrez. Não fiz cinema mudo. Não fiz cinema. Ninguém chorou em meus filmes. Não sou uma psicopata, nem sociopata nem nada disso. Sou o abstrato, o propósito e a falha.No instante em que decifro o código que me faço sentido, existo, humana e ordinária.

Laís Romero

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ato máximo

atirei meu coração aos lobos
e
por puro prazer estético
eles o mantém ainda vivo

Laís Romero

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Passageira

Nada pode me matar
nem o sumiço das horas
passatempo tão pesado
nem a neblina nos olhos
amargor fechado
nem as agulhas espalhadas
gritando em minha pele
nem o sussurro tangível
de quem atravessa o labirinto
e nele se consome.

Nada pode me matar
ouço o despertar felino
das moças prostitutas febris
ouço o semáforo em amarelo
das madrugadas solitárias
meus músculos ouvem
e repelem cada centímetro.

Nada pode me matar
nem a minha insegurança
meus braços maiores que tudo
o sufoco que impus ao mundo
as trapaças na roleta russa
Nada
o frio que me enreda
e devolve meu ser azul
não pode alcançar meu peito.

Nada pode me matar
nem os tiros de glória
de um passado inexistente
nem os hermetismos de outrora
serenas madrugadas sombrias
álcool e poesia
desejo e repreensão.

Nada pode me matar
eu grito isso há tanto tempo
reviro páginas
deito espalhada
e penso se vou ficar aqui sozinha
pelo resto dos dias
sem me levantar.

Laís Romero

domingo, 11 de abril de 2010

eu digo amor

e meus lábios se entregam em febre e reticências. Antes a palavra escrita ante o desespero de não ser. Sempre espero alguma coisa além e sempre me perco nos ilimitados detalhes das texturas incandescentes. O fogo. Eu digo amor. Desta vez grito para que o sangue corra rápido, para que o medo estremeça e para que meu rosto assuma nova cor. Eu sempre digo amor. É que me repito em parágrafos infinitos, me suplico para que eu pare e não atendo meus pedidos. Ah!... eu digo amor! Eu digo e não funciona, minhas pernas somem e eu morro quando a alma abandona, o vento me carrega e é quase sempre o espírito. Eu digo amor, eu digo.

Laís Romero

sexta-feira, 12 de março de 2010

Penso em deixar a vida
Como uma flor na calçada é deixada:
Com lentidão na queda
Com desdém no gesto
E com amor na alma.

Laís Romero

quarta-feira, 3 de março de 2010

Falésia

Dessas muitas faces que me aparecem
encontro sempre o aconchego
de luzes infinitas
piscando no fundo de teus olhos
molhados.

Seria palimpsesto a ser desvendado?
Ou o véu que te inebria
é convite desnecessário
para pulo abissal?

Não há atrevimento que responda
nem domínio
que minha escassa ciência permita explicar.
Somos apenas o mais puro e catastrófico
conceito de falésia.

Laís Romero

domingo, 31 de janeiro de 2010

Aos ipês floridos no caos

Hoje me agride o lirismo ufanista
me cansei de flores coloridas e perfeição
quero a falha
lamber o sangue e as feridas

Hoje o que me faz poesia
é o calor subindo do asfalto
a explosão dentro do grito
real, cru e seco

Hoje o humano me tocano
cerne e na carne,
quase sempre quente,
no olho violentado
da imundície do crepúsculo

Hoje, no desafio da lógica,
fazer do concreto música e poesia,
só me cansa o lirismo do impossível
literatura de beira de abismo
amor invisível ao chão

Laís Romero