quinta-feira, 11 de novembro de 2010

a carta ao jovem poeta


A carta amarelecida guardada com preferência inclusive à revelia de livros e tratados, era um sinal daquele tempo... Uma espécie de ponte para outro lugar e para outro tempo... Cotidianamente, com calma e cautela, ele revirava o velho baú onde a carta estava jogada – mas por que no baú? A resposta era simples, porque ali era o lugar, desde menino, que guardava todos os tesouros descobertos: as jóias da coroa, lentilhas, uvas-passas, pólen, sinetes, guizos de bufões, selos, armas emperradas, cadeados oxidados, lanternas, ostras, redes de pesca, quadros de Goya, frascos de perfumes, odores de anjos, peles de cobras e, mais ao canto, protegido por uma fina tela esgarçada, assomos e gostos de virações marinhas... A carta estava lá... Para abri-la, há vinte e cinco anos o gesto era o mesmo: rasgava no fundo do olho uma fenda por onde escorria uma lágrima dourada... Depois, cheirava delicadamente o papel azul, lia ternamente, seguindo a leitura com a ponta do dedo... Após a leitura, um poema lancinante nascia do fundo abissal daquelas palavras... Ao fim e ao cabo, assinava: Raine Maria Rilke... E o poema e a carta, num mesmo som e num mesmo embalo, pareciam cada uma parte do outro, como o sal do mar, a areia do deserto...

Francisco Denis Melo (colaborador, Sobral-CE)
foto - Demetrios Galvão - 2008

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Manhã


Na manhã reconheço a brisa que há muito não sentia;
Complacente com o estalar da roupa na pia do quintal vizinho,
Água no fogo para fazer café,
Um pedaço do céu sobre meu quintal rodeado de casas de tribos diversas,
Vento nas folhas do pé de manga como um chocalho gigante,
Pardais que vez enquanto visitam-me próximo à porta da cozinha.
E repito nos muros: Os carambolos dizem sim em menção aos dias!

A alvorada lateja sutil na minha fronte
E eu vivo manhã,
vivo toda manhã de sol ardente na minha pele dormida.

E assim a geometria dos espaços se configuram; manhã, tarde, noite cêdo
Pra na hora em que a areia toda em meus pés
Eu virar de ponta cabeça pra contar o tempo outra vez; Nova manhã de novo!


Fagão
nankin sobre papel - 2010
Demetrios Galvão
Intempéries
p/ Frida


Para quando, na face,
O sorriso ausente verte-se em lágrima cadente.
Quando nascera, crescera deveras.
E o mundo fez-se minúsculo dentro dos ossos que apertavam
Na carne
Quis um foguete para partir.
Como não tivesse, fabricava quadros.


Katiusha de Moraes (colaboradora, Fortaleza – CE)
(poema do livro Fabrica de Asas, 2009)
http://fabricadeasas.blogspot.com/
foto - Demetrios Galvão - 2008

tudo feito em casa

--------- >>>>>>> No mês de novembro o blog será povoado por imagens feitas pelos oníricos e seus colaboradores, serão fotografias, desenhos e colagens que irão compor juntamente com os poemas as tramas virtuais do blog e que ao final do mês serão expostas na !!ª Poesia Tarja Preta.

sábado, 6 de novembro de 2010

O homem e outros bichos do bestiário de Dobal

BESTIÁRIO
(H. Dobal)

O homem e os outros bichos que passeiam
neste campo de cinza te perseguem.
E após tantos verões sua presença
ainda se guarda em ti como na infância.

E em ti se faz antiga esta lembrança
do descuidado andar nestas veredas
de gado. Mas outra vez nos tabuleiros
de abril teu cavalim de carnaúba
estradando no ar campeia ovelhas.
Vence os campos de outrora e as miunças
soltas do seu passado te restauram

em teu tempo. Teu tempo consequente
neste imenso curral em que te amansas
triste e só campeador de lembranças.



Talvez os versos de “Bestiário” possam ser apontados como um poema-síntese da primeira parte de O Tempo Consequente, o fundamental livro de estreia do poeta piauiense H. Dobal (1927-2008), editado em 1966. Neles, encontramos mais que os títulos da obra e sua primeira parte, “Campo de cinza” [“Teu tempo consequente, neste campo de cinza”], mas a apresentação de seus principais temas. O interlocutor do poema pode ser entendido como o próprio poeta, funcionando então “Bestiário” como uma espécie de poética para “Campo de Cinza”. Ali se delimita consideravelmente grande parte da temática da referida obra.

É notório que o poeta não tenha escrito “o homem e outros bichos esquecidos”, como se referia ao final do poema imediatamente anterior, “Réquiem”, mas ao “homem e outros bichos que passeiam”, pois encontram-se, neste momento, povoando as lembranças de um “menino crescido” que em si restaura um tempo consequente. Um ambiente idílico se reconstrói, justaposto à miséria que os versos iniciais inferem ao, inevitavelmente, evocar o já mencionado poema “Réquiem”. Um menino que campeia nuvens [ovelhas] em um cavalinho de carnaúba. Mesmo quando permeia o onírico, Dobal mantém a inconfundível e admirável rusticidade que retransforma a lembrança-sonho do “menino crescido”, em que se campeia ovelhas pelo céu em um menino que olha para as nuvens, naquele abril, breve intervalo dos verões, dos outubros, onde jaz o homem [e outros bichos], como se o sonho, o céu, [este imenso curral] lhe amansasse, como se ali existissem as “lendas tramadas pelo inverno” a que refere o poema “Campo Maior”. Porém, as nuvens não são mais que lembranças, estas que no Piauí, costumam ser passageiras e poucas águas trazem.

Uma definição para o eu lírico dobalino: triste e só, somente um campeador de lembranças, estas que tresmalharam num campo bem maior que os tabuleiros de carnaubais, o próprio tempo que reduz tudo a cinzas, revelando a existência minguada de um ser esfacelado que busca sobreviver, e nisso não difere de nenhum outro bicho que habita essas chapadas corcoveadas de cupins, onde o capim agreste não dá sustança e o gado magro mal se mantém. Uma simbiose homem-bicho, zoomorfização típica desta primeira parte de O Tempo Consequente, apresenta-se desde o título do poema em questão: “Bestiário”.

A estrutura de “Bestiário” assemelha-se a um soneto recomposto. Um possível segundo quarteto funde-se a um possível primeiro terceto, numa única estrofe de 7 versos. Na poética dobalina, a apropriação muito particular de formas poéticas tradicionais, ganhando em sua obra uma feição própria, é um aspecto observável em diversos poemas, como “Introdução e Rondó sem Capricho”, no qual Dobal utiliza dois padrões de uma forma poética, o rondó português e o rondó francês, reestruturando assim os dois modelos em um só. Se o poeta buscou realizar alguma correlação com a estrutura típica do soneto italiano permanecerá matéria obscura, mas é curioso que “Réquiem”, apresente justamente 14 versos divididos em três estrofes de 4, 7 e 3 versos, predominantemente decassílabos, e que as licenças poéticas sejam encontradas apenas em 3 versos da estrofe que, em teoria, estaria reunindo o segundo quarteto com o primeiro terceto da configuração tradicional de um soneto.

Mas o que seria esse Bestiário de H. Dobal? Remetendo aos mosteiros da idade média, Bestiário é um tipo de literatura descritiva do mundo animal acompanhado de mensagens moralizadoras, reunindo informações sobre animais reais e fantásticos. Entretanto, a significação óbvia seria associar bestiário a besta, animal de carga, de onde teríamos o adjetivo bestial. Porém, a leitura de poesia sempre nos permite alguma fuga. Estilisticamente, é um recurso típico de Dobal a justaposição de termos, como se substituíssem um ao outro ou se fundissem em uma única ideia a ser expressa por elementos que não estariam necessariamente correlacionados, mas quando evocados lado a lado, causam estranhamento, situação tão cara à poesia, tanto sintática quanto semanticamente. Nisso reside boa parte da dicção própria do poeta. Então, poderia um antigo Bestiário monástico transfigurar-se agora no catálogo desses bichos esquecidos, incluindo sobretudo o homem, evocados agora nos verbetes das lembranças campeadas em um imenso curral onde te amansas?



[publicado no Jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 19 de outubro de 2010]

Adriano Lobão Aragão (colaborador)

Ágora da Taba
adrianolobao.blogspot.com
dEsEnrEdoS - uma revista de cultura e literatura
www.desenredos.com.br

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Nau-Frágil Ancorou Na 10ª Poesia Tarja Preta


Para muitos Ana Cristina César é uma poeta desconhecida. Ela não é uma figura pop e nem tem uma escrita subornada. Seus poemas falam por ela, mesmo depois de deixar a vida em uma rasante tentando “ancorar um navio no espaço”.

A 10ª Poesia Tarja Preta resgatou a nau-frágil do fundo do céu turvo em uma correspondência trans-dimensional. A noite criada pra Ana foi composta por uma tapeçaria leve e densa, com imagens da casa subjetiva do artista plástico Tupy, as sonoridades de estranhos objetos em delay, com depoimentos sobre a poeta através do programa “Entrelinhas” e com o documentário “A Revolução dos Pirulitos”.

O terreiro do Orbital Canteiro de Obras tem produzido sua existência por associações e conexões entre artistas e amigos, bem como por artistas-amigos. A todo mês um intercâmbio de artes, um diálogo entre linguagens distintas que duram a noite toda, provocando os expectadores, instigando conversas, incitando encontros, sorrisos e tilintares de copos... o lançamento do documentário que tem o poeta Chiquinho Garra como seu personagem principal foi uma lição de como se pode adoçar a vida e a existência com ações simples. Parabéns ao Coletivo Diagonal – Aristides Oliveira e Meire Fernandes – pelo trabalho realizado. E agradecemos ao artista plástico Cícero Manoel e ao poeta Adriano Lobão, pelo material doado para sorteio que ocorreu no decorrer da noite – novas parcerias, mais pessoas conspirando junto com os Oníricos.

Já era noite adentro quando Ana Cristina César salta do seu apê e aterrissa no corpo de Emanuelle Chaves, linda apresentação. Ana aparecia entre o sorriso tímido e a voz firme de Manu quando dizia: “Ana foi a própria encarnação da modernidade. Soube ser feminina sem ser feminista, sem estar ideologicamente presa a nada. Talvez por isso, tenha morrido cedo, fazendo sobre nossa terra uma passagem permanente. O lugar que ocupa como poeta é na linha do horizonte - virtual e veloz.”

Os poemas recitados pelos Oníricos (Laís, Valadares, Kilito, Demetrios, Thiago) se enroscavam nas bases feitas por acordes de guitarras e os sons tirados de serrotes, martelo, pá de pedreiro, tampas, lixas, garrafas, “instrumentos” não convencionais que produziram uma semântica sem gramática. Nas texturas alinhavadas por palavras e sonoridades, os poetas seguiram Ana em uma viagem por seus andaimes, abismos, correspondências, varandas iluminadas e se perderam em seu corpo.

Havia uma invenção que desatava a noite, havia sorrisos e satisfações que reinventavam Ana, havia um conforto poético que produziu o recital para além das poesias, havia um feitiço, uma magia que desenhou a calmaria ----- A noite queimou silenciosa.

Demetrios Galvão

Emanuelle Chaves

Kilito Trindade

Valadares

Laís Romero + Thiago E.
Laís Romero

Thiago E.

Demetrios Galvão

Filipe Raiz


# todas as fotos por Kátia Barbosa #

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Impressões do 10º Encontro Tarja Preta - Noite Ana Cristina César

A noite foi calma. As pessoas concentradas. Olhos atentos e mãos pousadas nas mesas. Ana Cristina César estava lá. De início o documentário A Revolução dos Pirulitos trouxe a simplicidade e crueza da vida de Chiquinho Garra, que também estava lá, e apresentou-se com entusiasmo e orgulho de ter sido homenageado no evento. Logo após foi exibido um curto documentário sobre Ana Cristina César, do programa Entrelinhas, capturado para a ocasião.

Abrindo a noite, e ecoando por todo o Canteiro de Obras, Emanuele Chaves trouxe uma doce apresentação: encantada de risos e intensidade, entrelaçando-se com poemas e melodias vindas não-se-sabe-de-onde. As artes de Tupy trespassavam os olhos de todos ali presentes enquanto que os Oníricos apareciam de todas as partes, Ana Cristina César entalada no peito, rasgando as vozes, sussurrando garganta abaixo... ela estava lá. Logo o público atento se torna atração, trazem poemas ditados na hora, gritos guardados desde o mês passado, poemas em embolada, palavras, fatos, desejos... A música surgiu enfim, sem combinados ou ensaiados, eles invadiram e cantaram noite adentro... A noite Ana Cristina César trouxe poesia aos poetas, tão difícil quanto ancorar um navio no espaço.

Laís Romero


Academia Onírica: Demétrios Galvão, Kilito Trindade, Laís Romero e Valadares + participações: Chiquinho Garra, Emanuelle Chaves, Thalita Ciana, Chakal,
Adriana Galvão, George, Guto, Sheldon, Retana Blanche, Zorbba Igreja, ..............
Abertura da Noite: Emanuelle Chaves
Exposição: Tupy
Documentários: Entrelinhas Ana Cristina César,
A revolução dos Pirulitos -- direção de Aristides Oliveira
Sonoridades: Thiago E. e Demetrios Galvão
Fotografias: Kátia Barbosa
Parceiros:
Canteiro de Obras, Revista Trimera, fotógrafa Kátia Barbosa, Estúdio Totte,
Pontão de Cultura Preto Ghoez Vive e ponto de cultura Nos Trilhos do Teatro

Chiquinho Garra

Emanuelle Chaves

Emanuelle Chaves + Demetrios Galvão + Thiago E. + Kilito trindade

Valadares

Kilito Trindade

Laís Romero

Demetrios Galvão + Thiago E.

Thiago E.

Chakal Pedreira

Guto

Adriana Galvão

Geórge

Thalita Ciana

Narciso


Kátia Barbosa + Demetrios Galvão + Thiago E.




Sheldon

Renata Blanche

Zorbba Igreja

# todas as fotos por Kátia Barbosa #