sábado, 29 de janeiro de 2011

A calma cor dos teus olhos
Marca pesado nos meus pulmões.
Estampa em nossas camisetas
As manchas da noite de ontem:
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Nossos corações tremulam
em uma bandeira sem pátria.
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Demetrios Galvão
foto - Kátia Barbosa
Se ao menos afogasse o mal feito no copo
talvez a dor aquietasse essa triste fase
de não ser aquilo que queriade não fazer o que preferiria.
se minha boca fechada permitisse o não nascer desta mágoa de si mesmo
eu talvez matasse dentro , em mim, as falhas.
a dor do não saber onde agarrar
ser deriva, sem salvamento, sem saber nadar.
se as notas servissem pra queimar o que tocam
se houvesse consolo para o que por dentro incomoda
eu salvaria de mim o que ainda resta.


Renata Flávia
http://lustredecarne.zip.net/

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Z I N E - S E

video

Fanzinoteca Mutação ArtEstação

Fanzinoteca Mutação www.fanzinotecamutacao.blogspot.com.

Espaço de preservação e pesquisa de fanzines, através de um projeto da Funarte,

junto ao Ponto de Cultura ArtEstação, em Rio Grande –RS.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

foto - Kátia Barbosa
AMOR-TECIDO


sou uma ilha cercada de amores por todos os lados
sou um golfo cada vez mais dentro do teu continente
esquadrão sem excesso de contingente
corpo infante, fortaleza e um punhado de sonhos misturados
com os teus sei-os bem que me fazem atar-me
e a ti guardo em verso o inverso da minha sombra: Eu!
o contrário das minhas sobras: inteiro!

como Van Gogh à luz do sol em campos de centeio
meu corpo passeando em ti na hora do recreio
e te abraço feito brisa desejada em dia de calor intenso
luar em solo-espelho duplicando frente a frente,
cara a cara, boca e vulva...
[...sinto o torpor de teu delírio e incenso.]
ascensão! O meu amor se traduz como sonata soando em vitrola
como “alvorada” de Cartola
tal qual yng-yang em equilíbrio santo
um entender de amar em esperanto
arrebatamento, calmaria...


Fagão
foto - Kátia Barbosa
O Velho Dragão

José Alcides Pinto, poeta e escritor. Delator de almas. Mestre em metais, alimentador de forjas e sois. Há quem diga que foi ele quem forjou a espada de Carlos Magno e o embornal de Marco Pólo. Costumava escrever repetidamente o mesmo poema. Tinha tiques nervosos quando estava envolto em uma nova idéia, por isso todas as vezes que precisava se isolar, subia no velho tamarineiro e disputava com os pássaros os primeiros raios de sol. Tinha a espinha arqueada e gaguejava quando falava principalmente de mulheres. Era longelíneo. Mãos grandes e penosas, porque quando moço, muito moço ainda, apostou que poderia escrever duas mil e quinhentas cartas de amor, e ao final da empreitada, tendo vencido a aposta, tinha os dedos diluídos entre sereno e lágrimas, de modo que suas mãos cavavam constantemente ribanceiras e cacimbas...
Francisco Denis Melo (colaborador, Sobral-CE)
foto - Kátia Barbosa

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

12ª Poesia Tarja Preta

Onírico é o delírio, o sonho absurdo nos subúrbios do tempo == trânsito na periferia da razão – salto na matéria sem forma == carregar na mochila uma poética do desregramento, da invenção livre... à a Academia Onírica é a reunião de poetas com transistores diversos que se conectaram com o propósito de produzir e por em circulação Poesias Tarja Preta === esse coletivo agencia especulações subterrâneas e conspirações poéticas --- reunião do clube dos prostituídos, dos que transam comprimidos sub-atômicos e despacham nos correios cartões-postais do fim do mundo para corações-bombas que saltam de pára-quedas nos abismos das avenidas.

No dia 20 de janeiro a AO completou seu primeiro aniversário no aconchego de friozinho, com todos debaixo da grande tenda azul que cobria o Canteiro de Obras. E foi na ótima companhia da banda Neandertais e das imagens de Kátia Barbosa, Açai Campelo e Lina Magalhães, que 12ª Poesia Tarja Preta produziu seus contornos e sabores. Os Oníricos propagaram seus poemas e suas loucuras, e os espectadores não ficaram atrás, seguiram a trilha dos poemas e lançaram seus textos no ar, amplificados pelos microfones. Noite agradável de aniversário, comemorações e a satisfação de um trabalho realizado que completa um ano.

Obrigado a todos aqueles que acompanham os passos da AO e aos nossos parceiros.
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Demetrios Galvão


Demetrios Galvão
Laís Romero

Edimarzinho + Kilito Trindade

Valadares

Thiago E.

Neanderthais

exposição

Kátia Barbosa

exposição

Emanuelle Chaves

Francisco de Sousa Vieira Filho

exposição

Manu Sato

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

1 AnO de AO - participe!


Academia Onírica + banda Neanderthais

+ exposições fotográficas de Kátia Barbosa,

Acaí Campelo e Lina Magalhães.

comemore com a gente um ano de Poesia Tarja Preta!

apareça e traga poemas no bolso, na bolsa, na cabeça, no coração...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jorge Mautner faz 70 anos hoje! Viva o mestre!


Depois de mais de dez anos sem virem a Teresina, Jorge Mautner e Nelson Jacobina se apresentaram no III Festival de Teatro Lusófono, no histórico dia 20 de Novembro de 2010. Foi uma apresentação histórica por vários motivos: o evento teve muito da sua programação cortada porque o Governo do Estado do Piauí havia se comprometido em patrocinar uma parte considerável do Festival e não o fez – primeiro mandou simplesmente cancelar e, posteriormente, ajudou com uma quantia bem inferior a que fora combinada – político maltratando cultura é um triste clichê. Mautner e Jacobina estariam entre as atrações canceladas, mas eles foram super-fraternos conosco e vieram mesmo sem cachê imediato; além disso, todo o FestLuso, incluindo o show, foi grátis!; e, para mim, a vinda do Jorge e do Nelson foi mais que alegremente irresvalável porque a banda que faço parte, a Validuaté, ainda abriu o show dos dois no Espaço Cultural Trilhos. Um obrigadão e gracias e um merci beaucoup imensos ao ator e coordenador Francisco Pellé – importantíssimo nesse encontro. Mautner ficou em Teresina da meia-noite do dia 19 até a tarde do dia 21. Nesse pouco tempo na cidade, ele participou conosco de uma gravação em estúdio da música SUPERBONDER, composta em 2004 – que fiz após ouvir Tataraneto do Inseto e na qual o homenageio. E Mautner ainda topou ser entrevistado por mim na manhã de domingo, mesmo tendo dormido bem tarde devido ao show de sábado. Conversamos gargalhadamente durante uma hora e meia no CaJus – Centro de Assessoria Jurídico-Social – e outro obrigadão ao Gustavo Amorim, advogado que nos autorizou a usar o CaJus. Tudo foi filmado: estamos na pós-produção das imagens e o vídeo sobre esse encontro circulará em breve. Na entrevista, estávamos toda a equipe envolvida no registro do Mautner e Jacobina em Teresina: Mayra Brandt, Lívia Medeiros, Meire Fernandes, Aristides Oliveira e Denes Filho – todos contentes e empenhados. Estava presente também o grande artista plástico Amaral, que acabou sendo levado por nós e presenteando Jorge e Nelson com alguns números da revista Hipo Campo – seus trabalhos na vanguarda dos quadrinhos. Falando em artista plástico, agradeço caloroso e fraternalmente ao Joniel Veras, parceiro e irmão Indiano, que me chamou a atenção sobre o Jorge Mautner estar como o único exemplo de “poeta maldito” brasileiro na Wikipédia. Boa vida longa a Jorge Mautner e Nelson Jacobina! Tomara que a injustiça diminua e eles sejam reconhecidos como merecem! E, por tamanha contribuição à cultura brasileira, eles merecem tudo. Já se sinaliza o dia em que vai ser comum ouvirmos o que eu previ e disse na música SUPERBONDER: “Ei, mãe! Ei, mãe! Já tem criança dizendo que, quando crescer, quer ser o Jorge Mautner! Ei, mãe! Quando eu crescer, eu quero ser o Jorge Mautner!”

PS: a entrevista ficou enorme de 40 páginas e tomaria a o blog inteiro. Então copiei estes trechos da conversa e, numa maior oportunidade, publicarei a entrevista completa.

Thiago E

[falando sobre a melancolia que percorre toda sua obra]

Jorge Mautner – Eu tava muito melancólico e tava no pessimismo de Schopenhauer. A tristeza mesmo numa visão geral. Mas ela se modificou antes mesmo de eu ter consciência disso. Lá no Candomblé eu já sentia a alegria toda... Mas houve um fenômeno. Eu não conseguia escrever... aí eu li o Padre Antônio Vieira. De repente, olha que fantástico: li muito o Padre Antônio Vieira... Foi assim: ele chegou aqui, deu um estalo nele e ele começou a escrever sem parar.

Thiago E – Teu pai que trouxe o Vieira?

Jorge Mautner – É, exatamente. Toda literatura, trouxe tudo, tudo... pessoa genial. E aí eu imitei, eu mimetizei o estalo dele pelos contrários: então tinha toooda aquela chuva! Enevoada [contraindo os braços com força]! e de repente começou aquela chuva forte e eu adorei! Quanto mais pesada ficava, o relâmpago... Melhor! Aí eu fiquei muuuito alegre. Então foi o contrário – uma coisa que me dava tristeza eu transformei, nesse instante. Lendo o Padre Antônio Vieira, tive um estalo e comecei a desencadear a escrever – que é meu estilo até agora. Mais tarde, o Flávio de Carvalho, que era o pós-modernista, ele foi o primeiro a ler meus textos. Ele disse muita coisa. Ele disse: “Mas parece literatura indígena!” Fantástico, né? E eu fiquei muito contente [risos]! [tentando representar a fragmentação do seu estilo] Ê, ê, ê, ô, que, nem, e tal... Mas minha literatura toda, minha visão toda tem coisas substanciais. Não só arquetipais, são obsessivas. E é uma linguagem que, se você quiser, trata de coisas muito complexas e infantil também, se você quiser... Direta! Ajuda muita gente a desencadear estilos e tudo... sem mistério. Começar a escrever [escrevendo na própria mão]: “Estou aqui falando com o Thiago... outras pessoas estão presentes...”. E direto, tudo, escrevendo. Inclusive eu dou aula de literatura, a criança descreve, depois bota movimento...

Thiago E – Durante a escrita do livro Deus da Chuva e da Morte, tu reescreveu alguma coisa?

Jorge Mautner – Não. Aí é que tá: nada reescrito. Havia outra coisa gozada. Hoje em dia eu faço muito berço, mas... [gesticulando pra baixo, decisivamente] ...é intocável! A literatura é sagrada! No momento em que eu escrevo, mesmo o erro que eu fiz eu não posso apagar – tem de ser mantido. Tem trechos do livro em que a palavra sai errada. Eu ía escrever, sei lá, “automóvel”, sai “autilúmil”. Mantive a forma errada e, entre parênteses, tinha: “tive que manter essa forma errada pela autenticidade total...” Então, é exagero, né? Mas, tudo bem, tem isso [risos]. E depois tem a outra coisa que as coisas vêm num caudal. Quando eu vou fazer uma história, é claro, cê fica pensando, se influenciando... Chega uma hora que tudo se junta e forma um todo que sai... Que nem toda letra, poesia, tem sua música. Mesmo a música tem uma música por dentro. E na totalidade tinha essa musicalidade e essa autenticidade louca que inclusive eu não sei nem como eu não fui processado porque eu publicava cartas de amor e tal com o nome das garotas – e é tudo verdade aquilo, tudo, tudo ali ocorre! Então era um exagero de Existencialismo praticado... Um brasileiro influenciado por uma linguagem indígena – assim como Flávio – e mostrando a Nova Era, a Nova Coisa, situações simultâneas, trazendo histórias que têm três fins, você escolhe. Mas principalmente mostrando a importância da arte que era considerada popular... e ela é igual à arte a mais fina. Então Mozart igual Pixinguinha, Noel Rosa... a literatura não tem diferença. E essa proclamação de influências, da música caipira... importantíssima, né. Era um preconceito muito grande que se tinha. Eu citava autores estrangeiros, mas sempre pra mostrar que a cultura dos países – que não o nosso – era, de certa forma, um pouquinho menos impressionantes do que nós [risos]. Eu chego a afirmar assim num momento de ópio, imagina... (eu tinha conhecimento erudito, alemão, Beethoven, Mozart...) “Araci de Almeida é igual Beethoven, embora ligeiramente superior”. [gargalhadas].

Mautner defendendo o pan-brasilianismo...
EM BREVE - num escrito perto de você.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

comemoração de 1 ano de Poesia Tarja Preta!


este mês será na penúltima quinta-feira - dia 20.

Academia Onírica + banda Neanderthais

+ exposições fotográficas de Kátia Barbosa,

Acaí Campelo e Lina Magalhães

apareça, traga texto e participe!

dia 20/01 no Canteiro de Obras

entrada +zine + brinde = R$ 5,00

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

foto - Kátia Barbosa
Acorde
E cante seu hino
Recolha de sua solidão
Verbos que digam prazer
Toque com sua mão
Palavras novas e pérolas

Permita-me tuas curvas
Permita-me tuas retas
O que de teus lábios embriaga
O que de teus olhos guia
O que de teus seios seduz

Disponha-me do âmbar e do néctar
Que proliferam de ti
E das coisas de teus cabelos
E dos ombros macios
Que sustentam esse vestido libidinoso
Que camufla teu veio orgasmático

E quando tua pele
Estiver tatuada na minha
E teu ângulo invernoso
For adubo para meu riso
Desacorrente essas peças que nos separam
E se enquadre inteira dentro de mim

Por que cada passo
Que dermos nunca será exato
Mas trará dentro de nós a aventura do voo
A consistência do gen
Trazida na substância do filho
Na lógica da filha...


Valadares
foto - Kátia Barbosa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Eu
fantoche do absurdo
cabeça vazia e peito cheio
sempre
em desacordo com o tempo
quase ao alcance das constelações

No caminho não procuro
tabacaria alguma
tampouco finjo o que não pretendo

Palavras ecoam
e a melhor expressão
é a do silêncio
que mesmo verbo
não versa em nada

Não há flores neste asfalto
e a poesia em mim se cala


Laís Romero
foto - Kátia Barbosa
e plantam flores onde fenecem os frutos da terra*

e plantam flores onde fenecem os frutos da terra
para mães que não podem resistir às dores do parto
as vítimas de tanta desgraça atiram-se às trevas

pelos mesmos gestos de efusão materna acumulados
sem que nenhum júbilo encontrasse aquele que caminha
onde plantavam no sagrado barro os ossos do pecado

desfeito abrigo e caminho da palavra medida
que as mãos de uma mãe recolhe para o útero vazio
e com a língua recobre e cura a própria ferida
e planta flores onde fenecem os frutos de Eva
e grita as dores do parto de um filho sem umbigo

* do livro Yone de safo, 2007

Adriano Lobão Aragão (colaborador)
http://adrianolobao.blogspot.com/
dEsEnrEdoS - uma revista de cultura e literatura
www.desenredos.com.br
foto - Kátia Barbosa

um ano fotográfico -- tarja preta

Ao longo de 2010 a parceira e fotógrafa Kátia Barbosa acompanhou os passos da Academia Onírica pelos encontros poéticos, registrando ao seu modo a arquitetura das poesias tarja preta. E no mês que os Oníricos completam um ano de atividades, nada melhor, que uma exposição com os fragmentos imagéticos produzidos por Kátia Barbosa, que se seguem em nossa página virtual e no dia 20/01/11 em nosso 12 encontro poético. Além da exposição fotográfica (física) de Kátia Barbosa a nossa noite comemorativa de um ano terá também as exposições de Açaí campelo e Lina Magalhães (projetadas). Todos as imagens apresentadas serão registros das atividades da AO.
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Kátia Barbosa

sábado, 1 de janeiro de 2011

A Academia Onírica deseja
a seus leitores e colaboradores
um 2011 com muita Poesia Tarja Preta.
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feliz ano novo!!!
esse coração agora se torna uma boca vermelha
quer lamber o lado de fora, quer fazer o que der na telha

esse coração sem parafuso quebrou todas as torneiras
quer outro corpo, outro uso – quer ser a peça mais inteira

esse coração feito de fibra apenas treme como corda:
louco músculo que sopra, carne besta que só vibra

esse coração-cabeça tece uma meta no pensamento?!
ser coração-poeta com vida que venta dentro?!



Thiago E.
Teus olhos roubaram versos da
Minha pele,

Enquanto derramava sílabas em
Tuas mãos.


Katiusha de Moraes (Colaboradora – Fortaleza – CE)
Poema do livro Fabrica de Asas
http://fabricadeasas.blogspot.com/